Sou qualquer coisa de intermédio:
By Mário de Sá Carneiro
Aumentou sem que eu pudesse controlar,
O desânimo, o ciúme, a predição e o azar
E a mascara que dantes me cobria
Que me temperava as faces e que me servia
Deixou simplesmente de o fazer
Desnudou o que nunca desejei vir a ser.
Transparece agora sem que consiga conter
Porque são mais fortes, do que a força que tinha para os deter
A tristeza, o desalento, a amargura, e ainda assim a arrogância
O desconsolo, a teimosia e a implicância
E deixei por outro lado, ao frio e à chuva, ao relento
Deixei descorar ao forte imutável e infeliz sofrimento
A alegria, o contentamento, a folia, o riso, a gargalhada o alento
O Júbilo, A felicidade, O prazer e para ser franco até a alma desbotei
Nas margens de um rio, foi onde a vida lha ceifei...
Acabaram-se as charadas,
Morreu o riso e silenciaram-se as gargalhadas
O silêncio impera, nas ruínas que na paisagem ainda persistem
Estou doente, ferido, infeliz, silenciado, e por isso escrevo as cismas que ainda subsistem
E nesse silencio nessa solidão, nessa suposta quietude, não há calma que me chegue,
Não há sossego que me sossegue
Não há aconchego que me aconchegue
Irrito-me e aniquilando a paz grito simplesmente
Que à força desta mágoa não há o que me valha,
Nem o papel me salva, nem a razão me ralha
São simples palavras as que te digo,
As que te segredo ao ouvido,
As que te soltam,
Também o são, as que por vezes te irritam
São-no as que te amam, as que te adoram
As que te seguem
E todas aquelas que te ignoram
Palavras e nada mais,
Ideias simples ou complexas
Algumas simples futilidades, outras maravilhas tais
Que te conseguem ouvir
Que te dizem bom dia,
E em seguida te fazem sorrir
Há também as que te falam
As que no desespero te acalmam
Há as que te cheiram
As que te livram do desgosto
As que te apaladam o gosto
As que te mentem
Aquelas que por vezes sentem
As que te obrigam a chorar
As que te fazem rir como não há outras
Palavras nunca são simplesmente…
Palavras, ditas correctamente,
Desaferrolham o mal humorado
Minam o corrupto agastado
Curam o doente
Matam as saudades,
Dizem as verdades
Findam as misérias
Fazem milagres… Por vezes tragédias
As palavras quase são elemento, fundamental da união,
Quando não fomentam a minha triste solidão
E consoante, são usadas
Matam
Corroem
Ressuscitam
Criticam
Constroem
Maldizem
Homenageiam
Mas também Destroem...
Umas são verdadeiras
Outras ridículas
Há ainda as grosseiras…
Brotam de mentes brilhantes
De outras tantas ignorantes
E quem as fala tanto, não significa que as conheça melhor
Que quem em silencio as pensa
Que quem na penumbra as mima,
Acaricia
Elogia...
Palavras são armas de ousadia
De vergonha
De volúpia...
Palavras, são até as que nunca ouviste
Mas que de certo t'as disse nalgum momento
Em que me considerei com mais alento
Em que perssenti que as sentirias, mas não sentiste...
Não contemplo a tua ternura
Não fecho os olhos em busca da tua frescura
prefiro sinceramente não ter que ver
à sensação de apenas crer
Ao vazio, ao deslumbre,
Até a propria vontade sucumbe...
Já o sonho farto, antes mesmo de adormecer
E acordo sistematicamente na esperança de ver
O que quer que seja, que queira acontecer
Mas volto-me para o outro lado,
Que já não suporto, o meu estado...
Ora revoltoso, ora anestesiado
Mas sempre sinceramente,
Manifestamente, clarividentemente,
Ousadamente, orgulhosamente
Nunca alegre, jamais sorridente
Mas sempre enfastiadamente
Revoltado, acordado,
Raramente indiferente
Às vezes odiado, outras ainda amado
E sem contar com a falta de modestia
Que essa esqueci, apaguei a ultima restia
Possivelmente serei unicamente,
Talvez até rigorosa e escrupulosamente
Um triste, tristemente, alegre e contente.
Há pessoas que vivem uma vida encerradas, na sua consciência
Sem liberdade, sem espaço de pensamento…Apáticas, mortas de vivencia
Remetidas a dogmas, encerradas em verdades que as cegam, que as matam
Opacas no seu pensamento, tentam a expressão em forma de sombrios monólogos,
E nos silêncios que compartilhamos, dizem os seus olhos o quão tristes são, nesses instantes elas falam
Não revelam pensamentos, ideias ou ideais…Não os têm, não há espírito que os suporte
E pensar a ideia somente, mesmo nem sendo forte pode ser ideia de morte
E morrem assim tão esplendorosamente em silêncio, que as palavras, leva-as o medo
Corroem-se de dores, amortalham-se no sofrimento, deixam-se morrer a cada momento
E nada dizem, não vá a sua consciência ouvi-las e talvez quem sabe…Oferecer-lhes a liberdade
Há pessoas que não falam, com medo que se ouçam a si mesmas, e outras há que falam
No nome da verdade, e nada dizem senão apenas a descrição da desconsolada realidade
Desta prisão, que nos invade, destas mentes que nos mantêm reféns do ser próprio
E cheios, repletos de vaidade, ainda tentamos outra vez dizer mal da liberdade….
Mas outras há, que não falam porque a ideia… Mais vale nem a ter…É dos pensadores ópio
Não queremos delas usufruir, são drogas de outros, são somente reflexões
A independência é subjectiva, e as pessoas têm medo de espaços colossais, mesmo os do saber
Soa a disparate o que estou a dizer, mas na certeza vos digo que há quem as prefira manter
A dizer a mais pura verdade…A revelar uma única ideologia, uma ideia um sentido, um sentimento ou sequer fantasia
E se a memória for limitada, o perigo estará controlado
Se a reminiscência for recalcada, não existirá a vivacidade de poder ter concepções
Não existirão entrelinhas, meias ideias, ou outras quaisquer motivações
Que nos levem a falar, da prisão, da cadeia, do cárcere que pode ser o pensamento
E digo-vos isto cá de dentro sem grande constrangimento
Que morrer por vezes é o melhor remédio… A melhor solução
Mas há contudo quem esteja morto e não seja sensato para o saber
Há quem viva sem viver, há quem morra e não o queira sequer entender.
Que a morte é solução de mil problemas, quando estes nos enjaulam na sua lamentável sedução
Freude schöner Götterfunken
O Freunde, nicht diese Töne!
Sondern lasst uns angenehmere anstimmen
und freudenvollere!
Freude, schöner Götterfunken,
Tochter aus Elysium,
Wir betreten feuertrunken.
Himmlische, dein Heiligtum!
Deine Zauber binden wieder
Was die Mode streng geteilt;
Alle Menschen werden Brüder
Wo dein sanfter Flügel weilt.
Wem der große Wurf gelungen
Eines Freundes Freund zu sein,
Wer ein holdes Weib errungen,
Mische seinen Jubel ein!
Ja, wer auch nur eine Seele
Sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer's nie gekonnt, der stehle
Weinend sich aus diesem Bund.
Freude trinken alle Wesen
An den Brüsten der Natur;
Alle Guten, alle Bösen,
Folgen ihrer Rosenspur.
Küsse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, geprüft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott!
Froh, wie seine Sonnen fliegen
Durch des Himmels prächt'gen Plan,
Laufet, Brüder, eure Bahn,
Freudig, wie ein Held zum Siegen.
Seid umschlungen, Millionen.
Dieser Kuss der ganzen Welt!
Brüder! Über'm Sternenzelt
Muss ein lieber Vater wohnen.
Ihr stürzt nieder, Millionen?
Ahnest du den Schöpfer, Welt?
Such ihn über'm Sternenzelt!
Über Sternen muss er wohnen.
Dêem-me descanso mentes atordoantes
Deixa-me repor o equilíbrio em mim
Deixai-me respirar, inalar a alegria do pó enfim….
Constante, sem nada de extravagante
Deixem-me agora assim
A repousar, a descansar, somente em mim
Outra e outra vez, descansar por fim
Mata-me a pouco e pouco o cansaço do tempo, do fruto, do cancro….
Morro a cada minuto que passa a cada batimento, a cada respirar
Morro no momento em deixo de escrever, em que paro de pensar
Mina-me uma vontade quase eloquente
Uma queda poética, digna do sol poente
Corrói-me a semente… E a sábia tristeza envolvente
Solto os problemas ao sol, ao vento que os levará
Não sei para onde, mas para longe de mim, será
Retiro o nó da garganta que me asfixia
Mato em mim, a vontade de ser poeta de ser alguém algum dia
Mas de mortes e mortos, infelizmente apenas restam memórias
Apenas isso e algumas centenas de histórias…
A perda foi por infortúnio consumada,
Eles já partiram…cedo foram, ainda de madrugada
Deixaram-nos mais sós, mais pobres, mais tristes e desconsolados
Levaram com eles todo o resto mas não, não… Jamais a saudade
Essa fica e faz-nos de certa forma a vontade
De nos deixar, por vezes também morrer,
E de nesses breves momentos nos deixar perto deles ficar
Tão longe deste mundo tão longe desta realidade, pairar
Em quase sonhos, em quase devaneios…Enlouquecer
Longe fica tudo, excepto o desatino, a loucura
E lá longe fico também….Por um momento, por um alguém
Deliciando a mente e a alma com alguma doçura
Amarga? Amargurada? Triste? Enlouquecida? Vencida?
Não, a tormenta é distante e a doçura….Quase constante.
Procuro simplificar as palavras, para não mentir
Para não confundir mais o que pretendo dizer
Com o que não consigo disfarçar de sentir
Onde está a traição do meu fundamento
Que me fez dizer
Que o mar que observava era amor,
Fonte de alento, alimento, e eu que já me sinto sedento….
Fitava tão imerso, tal calmante
Tão lindo, traiçoeiro, perigoso, surreal e relaxante
Da mesma forma eu via o amor,
Esse sentimento…Essa ferida de ardor
Donzela sem espinhos, que não me quis injectar, veneno tão letal
Esse afecto, forte completo a quem chamam amor…não é banal
É forte veemente, como o mar, em dia de tempestade
Daí a confusão…
A indecisão
A verdade é só uma, e está despojada de protecções
Está só, livre de quaisquer contradições
Bastaram duas palavras para chamar outra vez o ser a sentir
Esse bobo triste que aparece sem terem de pedir
Pedindo afectos mil, ou sofrerá, por solidão
Por embaraço, nada de novo, e por paixão
Não tenho porte, nem tais intenções…
Não o escondo, nem esconderei,
A ser eu tentarei…
Mesmo que assim fuja, de mim, serei
Bravo se preciso,
Ágil, lesto, conciso
Agitado, carismático
Cru, nu, despido do preconceito
Relaxante e gostoso a preceito
Saboroso, delicioso
Leal, poderoso,
Dominante e quem sabe feroz
Ou nada disto, nem tão pouco se tivermos a sós
Que tou rouco de gritar e os céus já não ouvem minha voz.
Quem dera ser Bocage
Quem dera conseguir escrever
Um poema que se visse, para toda a gente ler,
Sem truques, ou palavras complicadas
Sem grandes fintas, ou versos de pronuncias enroladas
Quem dera ser como Bocage
E conseguir com palavras simples, ou simples palavrões
Poemas para uns poucos, ou para as grandes multidões
De puros disparates ou até complexas paixões
Entreter quem queira, que os quisesse ler
Mas não tenho tal trato, e os poemas que vou fazendo
São aqueles de rimas mais que repetidas
Com palavras mais que muitas vezes ouvidas
Como são, “o meu triste sentimento…”
“Ai que não sei que faça com tanto sofrimento…”
E assim continuando com tamanho tormento
Estas são as voltas que dou em pensamento.
E de triste à tristeza e de frustrado à frustração
É apenas uma pataca ou se preferir um tostão
Corro a todas as possíveis, não pela primorosa poesia
Apenas pelo gosto daquela tão severamente triste união
Às vezes apenas um puro disparate, ou quem sabe a heresia…
É uma quase receita, junte um pouco mais de lamento
“Ai quem dera ser quem não sou, mas queria tanto ser…”
Sem como é claro que para tal, tivesse algo que fazer
Seguidamente junte uma pitada de fermento
Mas cuidado com as quantidades, especialmente no que toca ao desalento
Não podemos matar o publico logo ao primeiro verso,
Deixem-nos vir, ricos em contentamento
Para depois lhe mostrarmos a pouco e pouco o reverso
Agora aguarde que a massa cresça e junte outro condimento
Assim sucessivamente até completar a triste junção, até ficar pronto a servir
Para todos os alegres, ou simplesmente tristes que o queiram ouvir
No final a partilha do insucesso, tristeza ou, frustração
Deve ser feita em conjunto para que não sofra simplesmente na sua pobre solidão
Os desalentos podem ser no final compartilhados, chorados, ou até talvez amados
Mas fica assim a saber a receita para fazer bolos salgados
Pelas lágrimas, ou simplesmente tristes, em especial depois de serem lidos
Quem sofre mais no final são sempre os ouvidos…
Mas alegre-se que melhor “ouvinte” que o papel é nos dias hoje difícil de encontrar
Ou faltam quando chamamos, ou simplesmente não nos querem mesmo ligar…
Olhava o meu rosto refletido na água
Essa tao impura, e à minha semelhança triste...
Água que naquele cada vez mais pobre rio existe
Olhava-a enquanto ela no seu silencio e com a sua calma
Me explicava de forma simples e quase maravilhada
que eu simplesmente perdera a alma...
dei-a ao sentimento, que com ela fugiu
Apresentei-a ao pensamento, que com ela se despiu
Mostrei-a ao amor que com ela dormiu
Desprezei-a, e dei-a a todos e todos esses...E ela partiu
No final apenas soube que a perdi
E que com ela um pouco de mim tambem esqueci
Algures num tempo que não senti
Algures longe daqui...


